
Olá
Deve estar tudo ótimo por aí. O clima, sabemos, não é dos mais aconchegantes, já que para quem nasce em país tropical qualquer coisa abaixo de 10 °C é bastante complicado de suportar. Mas há tantas coisas que compensam isso. Aposto que o calor do aquecedor faz até esquecer que o gelo (há gelo?) ainda paira solene sobre as calçadas. Melhor ainda: a perspectiva da primavera chegando na cidade-luz deve ser algo tão excitante que faz as pessoas desejarem invernos cada vez mais rigorosos.
Penso que essa talvez não tenha sido uma maneira convencional de se começar uma carta. Que bom. Abaixo as convenções, não é verdade? O trabalhador médio - o de 8 horas por dia e salário que dá para pagar as contas no fim do mês – não tem de se submeter sempre às convenções. Senão enlouquece, surta, atira, se atira. Até nos pequenos detalhes é bom subverter (na realidade, é só nos detalhes imperceptíveis que temos coragem de subverter, afinal de contas, ninguém quer revolucionar a toda hora). Por isso tudo escolhi começar falando sobre o clima daí.
Isso sem querer me fez lembrar da função fática – aquela para testar o canal de comunicação – e automaticamente me remeteu à nossa faculdade. Por mais digressivos que estejamos, sempre há um caminho que realiza a ligação, estabelece o link necessário para que iniciemos uma conversa com pé e cabeça, decentemente.
Pois é, nossa faculdade. O curso que, de certa forma, possibilitou que nos conhecêssemos melhor. Talvez não. Talvez sim. Acasos, coincidências, destino, fado. Um curso em comum, um estágio em comum e lá estávamos nós aptos a estabelecer relação. E que bonito foi saber que de ambas as partes havia a necessária empatia, fundamental para que as pessoas suportem umas as outras. E ficamos amigos. Daqueles amigos de rir antecipadamente das possíveis piadas que se criariam a partir de uma situação. Amigos de chorar, de doer, de viajar junto rumo ao desconhecido, às cegas, a fim de fazer algo diferente por nós e pelos outros. Amigos de saber dos anseios do outro, de dar bronca, de pedir e dar conselho.
Agora você aí. Agora você no mundo – isso te lembra que amiga em comum? –, vivendo o futuro que traçou para si. Amigos são assim, vão e vêm. Eu jamais acharia essa frase boa para essa ocasião se não a interpretasse ao meu modo. Amigos vão e vêm sim, e jamais se desprendem por mais distantes que estejam. Você foi e vai voltar em breve. Para junto de nós, para junto de sua família e de seus amigos. Maior. Grande. Renovada.
Bem, já que eu não quis fugir tanto assim às convenções, vou falar um pouco de como estão as coisas por aqui – não posso me desviar muito do gênero, senão Bakhtin se assusta... Nessa semana teve eclipse total da lua. Vi da janela a sombra da Terra encobrir o satélite. Nessa semana também teve enchente. Nessa semana teve assalto, morte, vida, sorrisos, flores, gargalhadas, beijos, cheiros, novidades, amores, prazeres, desejos. Teve de tudo um pouco, como sempre. Teve saudade também, teve vontade de ver pessoalmente alguém que está do outro lado do Atlântico.
Tenho certeza de que você também tem coisas para falar. Sobre torres, arcos, senas, campos elíseos, flores, amores, beijos, saudades, crianças, estudos, cores, cheiros, sabores. Sempre haverá coisas novas sobre o que falar. Basta estarmos dispostos.
De minha parte, acho que isso tudo já é o suficiente para encerrar essa carta que, infelizmente, sai curta e não vai via correio – era tão mais emocionante antes, mas que bom que o correio ainda existe como possibilidade. Tenha certeza ao menos de que esta é a primeira de muitas... Não tem graça falar tudo de uma vez. Melhor mesmo é criar possibilidades de novos contatos futuros.
Um enorme abraço. Um enorme beijo. Uma imensa torcida por dias cada vez melhores nesse ano todo de aprendizado que você tem pela frente.
De seu amigo